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Sonhos não envelhecem, mas podem morrer.

Um dia desses visitei uma loja maravilhosa, cheias de trequinhos inovadores e desejáveis, que ao ver logo imaginamos como ficariam simpáticos naquele cantinho da nossa casa ou escritório.

O que mais me chamou atenção foram as frases bem humoradas em objetos inusitados, que sempre me fazem dar uma passadinha por lá.

Já sou uma "cliente vip", que na verdade significa uma cliente da qual as vendedoras se lembram e logo abrem um sorriso. No meu caso, mais pelos comentários bem humorados do que pelo valor das compras que, esporadicamente faço por lá.

Enfim, uma loja de brinquedos inteligentes para gente grande. Passei uma hora por lá lendo as frases e o que me saltou aos olhos foi a palavra "Sonho". Lá tem sonho para todo gosto.

Algumas frases como: "Escolha seguir seus sonhos", "Sonhe grande, por que sonhar pequeno dá o mesmo trabalho", "Proibido desistir dos seus sonhos", entre tantos outros, me fizeram sorrir, até me deparar com a frase: "Sonhos não envelhecem, mas podem morrer."

Uau! Essa frase era diferente de todas as outras. Ela não me incentivava, ela me punha uma pulga atrás da orelha.

Eu não precisei comprar a plaquinha para me lembrar. Esse alerta ficou retumbando na minha mente.

Afinal, quantos sonhos eu realizei? Na verdade, muitos.

Quais sonhos não envelheceram? Ainda não fiz o levantamento correto, não sei como fazer isso na verdade. Sonhos envelhecidos ainda é um mistério para mim. Mas o que me fez pensar mesmo foi, quais dos meus sonhos morreram?

Primeiramente preciso fazer um aparte: sonhos não são meros desejos. A diferença entre eles é que sonhos são construídos por situações vivenciadas, boas ou ruins, frustações, traumas e desejo intenso de mudança. Quando desejamos algo muito profundamente a ponto de se tornar um sonho, somos impelidos a concretizá-lo.

Ter um diploma de ensino superior para as pessoas da minha geração, sem grandes recursos à época, foi um dos meus sonhos concretizados. Viver e trabalhar no velho continente, mesmo que por um curto período, foi outro sonho que realizei. Sei que tenho sonhos novinhos em folha, como ganhar um prêmio literário e consequentemente, reconhecimento.

No entanto, fazer a lista dos sonhos que morreram foi esclarecedor, confesso.

Descobri assim como morreram alguns sonhos e o que isso realmente significa para mim hoje.

Eu tinha o sonho de pertencer a uma banda. Queria fazer shows, compor, pegar a estrada numa turnê, ter clube de fãs, enfim, ter o que uma boa banda conquista com muito esforço. Até que a parte difícil de levar instrumentos de um lado para o outro e não ter grana pra voltar pra casa de taxi alta madrugada foi aos poucos mostrando que para seguir aquele sonho teria que adiar ou desistir de outros.

Para seguir com o sonho da banda não haveria tempo para o diploma universitário. Eu também não conseguiria trabalhar o dia inteiro, fazer faculdade à noite e ainda tocar nas baladas. Até que eu tentei, quando tinha vinte e poucos anos e um gás que não acabava mais.

Quando conquistei o diploma ainda tentei reviver o sonho da banda sem sucesso. O que aprendi com isso? Bem, aprendi que participar de uma banda não é um sonho que se sonha sozinho. É preciso sonhar junto com outros iguais e eu nunca achei o grupo certo. Meu sonho da banda ainda ensaiou um grupo a capela, O Windivoices. Preparei junto com minha filha o lanche, fizemos a chamada das pessoas, conseguimos um lugar bacana para os ensaios, mas só apareceu uma amiga, que aos poucos também foi desanimando junto com a gente. Depois disso pus mesmo uma pedra no assunto. Ali jaz meu sonho de grupo musical de sucesso!

Hoje eu componho, aprendo novos instrumentos, estudo os que já toco e e quero sempre aprender mais. Não é um sonho, é um hobby. Mas tenho um novo sonho com a música, ver meu musical nos palcos. Isso mesmo. Um sonho morreu mas das suas cinzas a fênix do teatro se levantou. Compus um musical inteirinho. Espero não deixar esse lindo sonho morrer e para isso vou divulgar para muitas pessoas. Um musical precisa atrair muitos sonhadores para decolar.

O meu "O carteiro, a menina e a boneca viajante", é um musical infantil baseado numa história real. Franz Kafka já era um autor famoso quando se deparou numa praça em Leipzig, na Alemanha, com uma pequena criança chorando copiosamente por ter perdido sua boneca. Imaginem nos idos de 1923 o valor que não teria uma boneca alemã. Eram feitas de louça, vestidas com roupas típicas, lindas, raras e caras.

O desespero da criança levou o escritor a se intitular "O carteiro de bonecas", se comprometendo a levar diariamente até a praça uma carta da boneca em suas viagens pelo mundo. Essa história comovente foi contada pela companheira do autor, Dora Diamant aos seus amigos, após seu falecimento em 1924. As 15 cartas, bem como a pequena a quem foram dedicadas nunca foram encontradas.

Finalizando minha reflexão, concluí que sonhos não envelhecem de verdade, eles se renovam, ganham outra roupagem e nos fazem arregaçar as mangas para realizá-los. Mas sonhos morrem, isso é um fato. As vezes eles precisam mesmo morrer para nos acrescentar as alegrias, tristezas e aprendizados do caminho. Deixar um sonho ir é sinal de amadurecimento. Meu sonho de ter uma banda e fazer turnês está junto com minha juventude. Não posso recuperá-la, nem desejo. Para chegar onde me encontro hoje houve muitos encontros fantásticos, desencontros espantosos e felicidades inesquecíveis que aquecem meu coração todos os dias.

Então, que vicejem os novos sonhos em minha vida e na de quem mais assim desejar!

Lembrem-se, as coisas mais fantásticas do mundo nasceram do sonho de alguém, e nunca se é velho bastante para não mais sonhar.


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1 Comment


André Mung
André Mung
Feb 07, 2023

Uau. Seu texto chegou-me como um Oráculo, Sonia. Gratidão por compartilhar! (aguardando o musical, visse)

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